Quando, em 28 de Fevereiro 2026, Estados Unidos e Israel, lançaram uma vasta operação militar no Irão, sendo o principal desiderato evitar o acesso do Irão à arma nuclear, previa-se uma guerra curta, conducente ao colapso do regime teocrático e repressivo iraniano, enfraquecendo também os seus aliados regionais e criando espaço para uma nova arquitetura de segurança no Médio Oriente. Todavia, em vez de estabilidade, a região entrou num ciclo de incerteza estratégica, volatilidade económica e crescente radicalização política. Na verdade, os conflitos no Golfo raramente resultam de uma única causa. São o produto de três forças que se cruzam e reforçam mutuamente: (i) a “fúria épica”, o argumento inicial de Trump, associada às ambições de poder e prestígio das grandes potências; (ii) a “fúria económica”, o argumento que atualmente prevalece, ligada ao controlo de recursos energéticos e rotas comerciais, sustentada também em razões geopolíticas; e, (iii) a “fúria divina”, alimentada por narrativas religiosas e identitárias profundamente enraizadas. Mais detalhadamente, a “fúria épica”, encontra-se na rivalidade geopolítica entre potências regionais e globais. Para Israel, a neutralização da capacidade militar e nuclear iraniana é apresentada como uma questão existencial. Para os Estados Unidos, o conflito representa uma tentativa de preservar influência numa região onde China e Rússia procuram expandir a sua presença. Para o Irão, a resistência tornou-se um ato de soberania nacional e de afirmação regional. O resultado é um jogo estratégico em que nenhum actor pode recuar facilmente sem perder prestígio e influência. A “fúria económica”, prende-se com o facto do Golfo Pérsico continuar a ser uma das mais importantes regiões energéticas do mundo, concentrando reservas de petróleo e gás fundamentais para o funcionamento da economia global. Qualquer ameaça ao Estreito de Ormuz, por onde circula uma parte significativa do comércio mundial de energia, repercute-se imediatamente nos preços do petróleo, nos custos de transporte e na inflação internacional, como aliás sucede atualmente. A guerra não é apenas uma disputa militar; é também uma disputa pelo controlo de corredores energéticos, cadeias logísticas e fluxos financeiros. As consequências afetam empresas, consumidores e governos em todos os continentes. O próprio enquadramento geoeconómico da região evidencia que as rivalidades do Golfo se desenvolvem na mais importante zona energética mundial, onde as alianças estratégicas se cruzam com interesses comerciais e tecnológicos. Por fim, a “fúria divina”. O conflito entre o Irão e muitos dos seus adversários não pode ser compreendido apenas através da lógica do poder ou do mercado. A dimensão religiosa continua a desempenhar um papel mobilizador. O Irão apresenta-se como líder de uma rede de movimentos e forças políticas inspiradas pelo xiismo, enquanto diversos países árabes sunitas procuram conter essa influência. Esta competição identitária confere ao conflito uma carga emocional e simbólica que ultrapassa os cálculos racionais da diplomacia tradicional. Quando as guerras são percebidas como confrontos entre visões do mundo, tornam-se mais difíceis de terminar.
Para a Europa, e para Portugal, a principal lição é clara: os conflitos do Golfo não são eventos distantes. A segurança energética, os fluxos comerciais, os movimentos migratórios e a estabilidade dos mercados financeiros europeus dependem cada vez mais do que acontece naquela região. Num mundo interdependente, a geopolítica tornou-se uma variável central da economia, da segurança e do quotidiano dos cidadãos. No final, talvez a maior ilusão tenha sido acreditar que uma guerra poderia resolver rapidamente problemas que se acumulam há muitas décadas. O Golfo continua a demonstrar que, na política internacional, as pontes são geralmente mais difíceis de construir do que de destruir. Porventura, ainda vai demorar tempo para que a guerra dê lugar à diplomacia na resolução do conflito.


